sábado, abril 01, 2006

Reportagem DN de 1 de Abril - Dia do Mega Encontro

Mulheres inférteis unidas pelo desejo de serem mães

Maria João Caetano







Têm um "mega-encontro" marcado para hoje, por volta do meio-dia e meia, em Leiria. Saíram cedo de casa, vindas de todo o País, umas foram buscar outras, colocaram no carro uma fitinha azul e outra cor-de-rosa, "assim quando se cruzarem pelo caminho já sabem como se identificar". São poucas as que se conhecem de facto mas há meses que se encontram em fóruns de discussão na Internet e trocam mails. Foi assim que se uniram por uma causa, a infertilidade, e que criaram um blogue dedicado a este tema (http/unidasporumacausa.blogspot.com). Em comum têm anos de tentativas e frustrações. E são sobretudo mulheres. Dos 72 inscritos para o almoço só 13 são homens.


Estima-se que entre 10 a 15 por cento dos portugueses em idade fértil não consigam ter filhos sem ajuda médica. São cerca de 500 mil casais à procura de respostas. No entanto, esta "é uma doença que é vivida muito na intimidade, entre o casal", explica Cláudia Vieira, 31 anos, há três "nesta luta" por um filho . "Muitas vezes nem os amigos nem a família próxima sabem. A maioria não tem sensibilidade para compreender o que estamos a sentir."


Cláudia começou por fazer umas pesquisas na Internet, em busca de informação, e encontrou um fórum sobre infertilidade (http/bebes.clix.pt). "Eu até era um bocadinho avessa a estas coisas mas foi uma agradável surpresa. Encontrei mulheres com os mesmos problemas do que eu. Faz toda a diferença. É impressionante os laços que se criam. Sentimo-nos felizes com os sucessos umas das outras e também sofremos com os fracassos que, infelizmente, ainda são muitos." Em Dezembro do ano passado, criou o seu próprio blogue, a que, num tom optimista, chamou "the dream will come true".


Não é a única. "Ser mãe é ser eterna... e desde Março de 2005 que o tento ser", escreve Sónia no seu blogue. "Tenho 31 anos e o sonho de ser mãe. Não sei se algum dia conseguirei concretizar este sonho, mas lutarei muito por ele", assegura Cláudia. Depois de dois abortos, Ana está "à espera de um novo milagre". Elsa, 34 anos, conta as várias tentativas falhadas e não perde a esperança: "Sei que um dia serei mãe. Neste mundo cibernauta descobri amigas que me têm ajudado muito nesta luta."


É fácil encontrar na Internet os diários destas mulheres, com nomes como "sonho ser mamã", "à espera das estrelinhas", "wish for a baby", "sonho adiado". Aí partilham os sentimentos mais íntimos. Sónia passou por mais uma desilusão: "Cabeça erguida, começar de novo, até ao dia que Deus me dê o privilégio de ser mãe." "Se sou louca, vejo que não estamos sozinhos (eu e o meu marido) nesta loucura", diz Regina.



"Noutros países há uma tradição de grupos de entreajuda que funcionam em várias circunstâncias em que as pessoas se sentem desapoiadas. Há uma força que tem a ver com o facto de pertencer a um grupo", explica Isabel Leal, coordenadora da psicologia clínica da Maternidade Alfredo da Costa. Maria Paula Fernandes, terapeuta familiar, considera que a Internet permite abordar um tema que, antes, era tabu: "Já não é tão silencioso assim mas só porque mulheres de coragem criaram este espaço de debate".


Um dia, três "amigas de luta" sentiram necessidade de fazer mais do que conversar. O primeiro passo foi lançar uma petição a entregar na Assembleia da República, chamando a atenção para os problemas comuns (ver caixa). Depois, surgiu a ideia de criar uma associação. Explica Cláudia. "A questão é: como nos podemos ajudar umas às outras?" Ao princípio, todas querem perceber, saber quais as principais causas da infertilidade, quantos hospitais e clínicas existem, quais os métodos disponíveis, o que devem fazer. "Além dessas indicações mais práticas, nós, com a nossa experiência, podemos dar alguma orientação àquelas que, pela primeira vez, vão fazer um tratamento. Podemos dizer-lhes o que vão sentir e dar apoio."


A associação, cujo nome ficará hoje definido, tem já objectivos traçados: dar apoio médico e técnico às mulheres, criar uma linha de apoio individual e grupos de apoio psicológico. Para isso, as três fundadoras têm-se dividido em contactos com laboratórios e médicos ligados a esta área de modo a estabelecer parcerias. "Vamos fazer protocolos com clínicas e negociar com as companhias de seguros, queremos ter uma palavra a dizer na legislação e discutir a certificação das clínicas."


Nos blogues das "tentativas" contabilizam-se com entusiasmo todos os sucessos. São poucas as que desistem. "Vou ser mãe de qualquer maneira", afirma, determinada, Cláudia Vieira. "É difícil aceitar a doença e é muito mais difícil aceitar que não somos capazes de todo. O que nos move é a esperança." A psicóloga Isabel Leal compreende esta atitude: "Desistir é sempre complicado porque, de uma maneira geral, houve um grande investimento emocional. É entendido como uma derrota pessoal."

10 comentários:

Tiquinha disse...

Fiquei com o olhito brilhante a ler isto!! Bem hajam mulheres de coragem!!
Ainda bem que apareceste!! tava a ficar preocupada com a minha mosquiteira!!
Bom FDS e muitossss beijos!!!

cris disse...

Estas moças são um ESPETACULO! Vou ver se ainda consigo encontrar o jornal. Olha, quanto ao livro, quando o li, tive o mesmo pensamento que tu, mas a verdade é que encontramos sempre forças que nem imaginava-mos ter.
Beijinhos e bom fim de semana

Alexandra disse...

Querida amiga,
O almoço foi óptimo e estou ansiosa por te encontrar no msn para te contar tudinhooooo...
Um beijinho
Alexandra
PS - Sabes q o meu Mr Red está de volta?? Pois é...o maldito.

TIA_TITI disse...

Fantástica esta reportagem. Não tinha conhecimento dela. Parabéns enão desistam pois contribuem em muito para o meu alento.
Beijokas

Musa disse...

Amiga, foi simplesmente FANTÁSTICO! Acho que não há palavras que consigam descrever a emoção e a união que se viveram e sentiram em Leiria no Sábado... Foi um dia que nunca vou esquecer...
Tenho mta pena que não tenhas lá estado porque gostava mto de te conhecer mas tenho a certeza que teremos outras oportunidades.
Um beijinho mto grande,
Musa

Sandra J. disse...

E é bom que se fale no assunto, pode ser que o Governo deixe de ser surdo...
Bjs grandes

Bem Me Queres disse...

Amiga, espero poder contar contigo no próximo encontro. Tenho a certeza que vais adorar!!!!
Beijinhos doces
Cláudia

mimi disse...

O almoço foi fantástico!
Já é muito bom alguém falar de nós!
Estamos no bom caminho.
Beijoquinhas fofas

Tiquinha disse...

Onde andas tu minha mosquiteira???

Tiquinha disse...

então???