terça-feira, outubro 23, 2007

“Baby blues”

Em mais um retrocesso no tempo, e analisando agora mais friamente, acho que nenhuma mulher, quando tem o primeiro filho está realmente preparada para ser mãe, por maior que seja o seu desejo. Então quando são gémeos, a coisa ainda se complica mais.

Tenho 2 amigas mães de gémeos, e ainda recordo a minha reacção quando, na altura, elas me comunicaram que iriam ter 2 bebés: “Ai meu Deus!” – sei que não foi uma resposta simpática, mas na altura foi o que me saíu. Isto numa altura em que eu não imaginava ou sequer me passava pela idéia que iria passar pelo que passei, e que a palavra “gémeos” fazia parte de um dicionário que eu não conhecia. Em todo o caso, na minha cabeça imaginava que um nascimento duplo não deveria ser nada (mas nada mesmo) fácil, daí a minha reacção “pouco simpática” aquando das comunicações.

Quando estava grávida foram diversas as reacções das pessoas ao saberem que eram 2. surpreendeu-me, no entanto, porque a grande maioria ficava em êxtase profundo e dizia ter o grande sonho de ter gémeos, então quando eu dizia que era uma casal, ainda mais extasiadas ficavam.

As minhas queridas amigas mães de gémeos, diziam-me sabiamente: “Amiga, vai ser um trabalhão!” – ao que eu respondia prontamente – “Eu sei, estou preparada!…” – elas retorquiam: “Ninguém está preparada até ao dia que eles nascem.”.

“Ninguém está preparado até ao dia que eles nascem”, verdade mais verdadeira que ouvi até hoje.

Os pipizes enquanto estiveram na maternidade, eram uns “come e dorme”, e como nós não podiamos passar a noite com eles, não tinhamos a verdadeira noção da realidade, E apesar de eu ter de acordar para tirar o “parco” leite com a bomba, lá conseguíamos descansar um bocado de noite.

No dia em que os trouxemos da maternidade, lembro-me que vinha no banco de trás sentada orgulhosamente entre as 2 cadeirinhas, eles eram tão pequenos que quase nem cabiam nelas. Saímos com a indicação expressa de lhes darmos de comer de 3 em 3 horas, tinham na altura mais ou menos 2400grs, e precisavam de ganhar peso.

A responsabilidade era agora nossa, tinhamos finalmente os nossos filhos connosco, para preencherem os berços vazios no nosso quarto, mas não existiam enfermeiras, médicos ou alarmes prontos a disparar caso alguma coisa estivesse a correr mal. E mais… Por mais que procurassemos, não existia “manual de instruções”…

Toda essa responsabilidade e insegurança de “mãe de primeira viagem”, juntamente com todo o stress acumulado pelas situações vividas nas semanas anteriores, mais as “benditas” alterações hormonais despoletadas pelo parto, foram uma mistura pouco simpática, e rapidamente comecei a acusar o cansaço.

As primeiras noites foram surreais: Acordar, mudar a fralda, dar de mamar aos 2, pô-los a “arrotar” e deitá-los a dormir, tentar dormir até dali a 1 hora e meia 2 horas no máximo. Quando estava a conseguir adormecer, eis que o bentido despertador dava sinal outra vez e tinhamos de começar tudo de novo, e uma e outra vez, uma noite atrás da outra.

A privação do sono deve ser da facto das coisas mais horríveis que nos acontece, a nossa cabeça fica baralhada e o cansaço acumulado impede-nos de reagir. Tenho noção que nessa altura muitas vezes perdi a noção de tempo espaço e mesmo da própria realidade. Acordava e nem sequer sabia onde estava quanto mais o que tinha de fazer a seguir. É uma sensação estranha muito estranha mesmo.

Entretanto os meus anjinhos começaram a transformar-se em “diabinhos”. E choravam, choravam, choravam. As benditas cólicas atacaram em força e eles berravam e torciam-se e torciam-se e berravam, e dias e noites e noites e dias. Talvez fose por causa do leite artificial, ou da medicação que tinham feito no hospital, não sei.

Existe, hoje em dia uma grande pressão para a amamentação, e eu sou a favor dela. Mas a verdade é que e além das “passas do Algarve” que passei para desencaroçar o leite, nunca fui uma grande leiteira. Lembro-me de estar lá nas salas das bombas do leite (ordenhómetro como eu chamava), e olhar invejosamente para as outras mães que com grandes bicos e jactos enchiam grandes biberões, enquanto que eu nunca ia além do 40/50 ml a muito custo.

O L. nunca quis a mamoca, depois de ter provado o doce sabor do biberão, achou desnecessário estar ali a puxar quando com a tetina a coisa era muito mais fácil. A M. pegou, mas mamava para aí durante 1 hora e eu ficava com a idéia que a pobre não tinha comido nada. Assim, dava numa mamada à M. e depois tirava com a bomba para dar ao L pelo biberão, pelo que o tempo que eu não passava a dar de mamar, passava agarrada à bomba a tirar uns míseros mls de leite. Durante a noite desisti porque demorava quase o tempo todo entre mamadas e realmente não aguentava mais. Os meus sinceros parabéns às mães de gémeos que conseguem amamentar, eu não consegui. O leite secou quando eles fizeram 1 mês mais ou menos.

Por esta altura já andava atacada com os “baby blues”, e perguntava a mim pópria o que é tinha feito, só me apetecia fugir e voltar à minha vidinha antiga de “sombra e água fresca”. Só dizia para mim própria: “Mas ser mãe é isto???” – questionei muitas e muitas vezes as minhas opções, nas alturas em que eles estavam mais inquietos.

Lembro-me que passei várias tardes com a M. ao colo com ela a berrar e a contorcer-se e eu sem poder fazer nada, adormecia-a, deitava-a e ela parecia uma mola logo que a pousava na cama começava a berrar outra vez…

Lembro-me dos 2 a chorarem com fome e eu sentada no chão entre as espreguiçadeiras com um biberão em cada mão a tentar dar-lhes de mamar e o L. a querer vir mamar para o colo e a chorar desalmadamente…

Lembro-me de estar a trabalhar no computador com um no colo e a abanar outro no chão na espreguiçadeira…

Lembro-me de um dia particularmente dificil, ao fim da tarde a dar-lhes banho com eles os 2 a chorarem em uníssono, sem se calarem e de eu estar a chorar também, desesperada e pensar em como gostaria de apagar aquele momento e não estar ali a vivê-lo.

Mas também me lembro do primeiro sorriso dos meus filhos, das primeiras “palradelas”, dos primeiros movimentos coordenados, da primeira papa, da primeira sopa, de olhar para eles a dormirem e chorar de felicidade por eles estarem ali.

Foram sentimentos antagónicos que senti naqueles primeiros meses, mas que foram evoluíndo juntamente com o crescimento deles. Já não imagino a minha vida sem eles. Continua a ser um trabalho exaustivo, e as noites ainda são mal dormidas, mas ao ver o sorriso deles ao acordarem, ou quando os vou buscar, saber que eles já conhecem a mãe e que quando ela chega já querem disputar o colo, os mimos… Não há nada que se compare a esse amor tão maior.

Beijos a todas

17 comentários:

Susana Pina disse...

Minha amiguinha linda,
e mais uma vez me sinto enternecida ao ler-te.
Um dos meus maiores receios enquanto grávida, era de facto as noites. Isso era o que me fazia mais confusão, ter que acordar quase de hora a hora, quando tanto precisamos de descansar e dormir.
Quando ouvimos as pessoas queixarem-se das noites e só têm um filho, nem imagino o que será com dois.
Mas o que importa é que hoje te sentes realizada, muito feliz, e que os teus meninos estão bem. O pior já passou...
Um bj com muita amizade
Susana

Nina disse...

:)
Já algumas vezes li mães a "culparem-se" por não terem podido amamentar os seus filhotes, julgando, ingenuamente, que poderia ser a causa das cólicas!
Amiga, eu amamentei até aos 8 meses, altura em que o D. resolveu deixar definitivamente de mamar, mas o meu leite não o poupou de cólicas! Havia alturas (todos os dias, durante 2 meses e meio), em que gritava feito doido!
A única diferença, a meu favor, é que o meu filho só tinha cólicas durante o dia, deixando-me descansar durante a noite!
O desespero de que falas deve ser normal em todas as mães!
Houve alturas em que me apetecia bater com a cabeça nas paredes, já que não podia bater com a dele, e em que a paciência com ele desaparecia!
Ai, se fossem 2!( eu sou daquelas que adorava ter um casalinho de gémeos!)
Hoje, olho para trás e relembro os momentos dificeis já vividos, chegando a questionar-me se foram verdadeiros (claro que foram!)
Valem-nos os sorrisos maravilhosos deles, incomparáveis, não é?!
No teu caso, são sorrisos a dobrar!
Pensa positivamente: se fossem 2 rapazes, ainda terias que suportar 2 noras!Lol...sim, porque não tenhamos ilusões: as chatices e o "baby blues" não pararam para nós!(isto fez-me lembrar o que me disse o meu irmão mais velho, quando ainda estávamos no hospital: não o estragues com mimos! Não te esqueças que, um dia mais tarde há-de ter uma a cabra de uma mulher!lol)
Xi muito gde dos 3 /4
P.S: já/só tem 2 dentinhos em baixo, bem saidinhos( e fica tão engraçado!), mas estão a romper os de cima!

Mariazinha disse...

Querida


Os teus relatos são de uma ternura impresionante, adoro te ler

Tudo de bom para voçes os 4

beijos

Mariazinha

Fatima disse...

Os primeiros tempos como mãe são tão complicados(ainda me recordo bem dos meus) mas é incrivél como tudo vai ao lugar ao fim de algum tempo e a felicidade que sentimos
é realmente imensa!!!
Eu sempre quis ter gémeos( se ter a real noção do trabalho que dá) mas hoje com o Diogo penso que se calhar não estava preparada para ter 2 assim, já!

Beijos Nossos

cris disse...

Pois ... dois é dose, bem sei pelo caso que conheço de tão perto na família, como sabes, mas acho que os sorrisos a dobrar são Maravilhosos!!!!!
Beijocas

Sem Desistir disse...

Acredito que foram momentos desesperantes...e com dois...
Mas a recompensa valeu todo o esforço.
bjs

amora disse...

Mais um relato maravilhoso e a mostrar que mesmo os dias felizes podem ser dias difíceis.

Que esses sorrisos maravilhosos dos teus bebés te continuem a inspirar sempre.

beijinhos

Ana disse...

Consigo imaginar... para mim o primeiro mês foi um caos. Chegava a acordar 10 minutos depois de ter adormecido com a sensação que já se tinham passado horas e que não tinha acordado para dar mama à Nô...
Andava tipo zombie e ficava parada imensas vezes no meio da casa sem me lembrar o que é que eu era suposto fazer... e supostamente era urgente...

Ainda por cima em dose dupla deve ser... de enlouquecer! :)

Beijocas ENORMES :****

R&L disse...

Mais uma vez... algo em comum e que até nem é pouco!

A propósito da privação do sono... Eu ainda fui menos corajosa que tu!
Nunca amamentei os bebés de noite, simplesmente não conseguia fazê-lo, porque se o fizesse e tendo em conta que eles eram muito lentos na mama, eu não iria dormir nem um ninuto! Talvez por só amamentar de dia, a mama não foi suficientemente estimulada e o leite acabou por secar naturalmente 3 semanas depois deles nascerem.

Para mim não foi drama nenhum.. Sei que teria sido bem melhor para eles o leite da maminha, mas isso significava um arraso na minha sanidade mental. Porque não dormir de noite e cuidar de dois bebés de dia sozinha como fiz sempre... não dava!
Não tenho remorsos. Felizmente tenho dois filhos saudaveis e lindos e isso para mim chega!

Quanto ao facto de ninguém estar efectivamente preparada para ser Mãe... não posso concordar!
Apesar de tudo, eu posso afirmar com toda a convicção "eu estava!", sorte a minha! Porque nunca tive ajuda de ninguém, a não ser o Pai nas horas em que não estava a trabalhar, ainda assim, nem todas, por outros motivos!

Beijinhos

Sonia&Mi disse...

Gosto tanto, tanto de te ler.
Revejo-me em tanta coisa, e só me ponho a pensar, o que seria se fossem dois.

Uma beijoca grande por tudo o que passaste e pela pessoa linda que és.

Nina disse...

Fizeste-me rir com o apontamento que fizeste sobre as fotos!:)
Ainda hoje, num intervalo, me perguntavam pelo D. e eu, claro, vai de mostrar fotos!
Um segredo: trago uma verdadeira colecção no meu saco, que mais parece uma colecção de cromos!lol
Sempre te julguei mais ajuizada, mas já vi que és boubelita a dobrar!lol
xi dos 3/4

YAMI disse...

Oi linda

epa..quanto mais te leio mas vontade tenho de te ler!!

És fatastica..
olha, sim..sou mae de gemeas e passei já as tuas fases :)))

beijoca sgrandes

yami

Barriguita disse...

Mas porque é que ao ler-te tenho a sensação de que podia ser eu a escrever??? só tenho um, mas as coincidências são tantas... ser Mãe é realmente tudo isto.
E aprecio acima de tudo a forma directa como falas das coisas... quem nunca desesperou e pensou " quem me dera ter a minha vidinha de volta!" deve ser canonizada!

beijocas

rute29 disse...

Como te entendo , ainda hoje tenho duvidas se fiz bem , mas quando olho para ela poça fico super contente porque ela estava guardadinha para mim eu só tive de chamar por ela !! Mas que dá um trabalhão dá , a bebé e tudo o que se refere a ela e depois é administrar os manos mais velhso e tudo o que se refere a eles tb e não é nada facil!!
Mas pronto é preciso é saúde e amor o resto vem !!!!
beijinhos!!
Digo te amamentei-a até oonde deu com uma brutal mastite pelo caminho mas quando acabou o periodo de amamentação custou me e lembro-me qua chorei e tudo mas agora vejo que foi o melhor porque eu não aguentava !!!

Tixa disse...

Já tinhas prometido que falavas no baby blues, eu sabia que cuidar de dois era tarefa nada fácil, mas ouvir na 1ª pessoa é bem diferente, mas acredita estes teus relatos são muito importantes...acredita.
Agora fiquei cheia de medo....(mas é um medo bom)
Bjcs grandes para ti e para os pipis

Ana disse...

Obrigada por me teres "absolvido" dos meus maiores receios que sentia como pecados - pensava que por ter passado pela infertilidade, não me era permitido sentir o que sentiste ou escrever o que escreveste. Estamos sempre a aprender e a passar por etapas diferentes. Estou quase a ter a minha filha e não é do parto que tenho receio - é de chegar a casa com 3 kg de gente no braço e sem qualquer ideia do que estou a fazer! Sinto-me profundamente grata por ter podido ler as tuas palavras! Obrigada por tê-las escrito!

Anna72 disse...

Não há super-heróis e os bebés não trazem manual de instruções nem botão ON/OFF como tal, o que relatas apenas mostra que és humana mas também que és uma mulher de armas e uma Mãe (com M grande).

Imagino que não tenha sido mesmo nada fácil.

Beijocas