quarta-feira, setembro 26, 2007

Nessas longas noites de vigília, os "ses" pairavam na minha cabeça: "Se tivesse aguentado mais uns dias", "se tivesse ido para um hospital público", "se", "se", e "se"...



No domingo amanheci febril, poderia ser da subida do leite, mas aparentemente ele teimava em não subir, poderia ser algo na cicatriz, poderia ser do stress, enfim... Iniciou-se antibiótico e retardou-se por mais um dia a saída do hospital. Nesse dia também, decobriram finalmente o que tinham os gémeos: Uma infecção muito grave generalizada (Sépsis), podia-se finalmente começar a tratar o problema e esperar que eles respondessem à medicação.



Nunca soube a origem de tal infecção. Na maternidade disseram que tinha sido transmitida pela mãe, o médico da mãe acha que foi transmitida pelo serviço de Neonatologia. De facto, a mãe nunca teve sequer uma constipação enquanto esteve grávida, e foi cesareana, mesmo que houvesse alguma bactéria por ali a rondar os bebés não entravam em contacto com ela... Onde quer que eles a tivessem apanhado, não era, naquela altura, relevante, a realidade é que eles tinham uma Sépsis e que o estado era muito grave.



Na segunda-feira, tive alta, ainda que enfebrada tive alta. Estava numa ânsia para ir ver os pequeninos, saímos do hospital logo que fomos liberados e eu e o pai lá fomos ver os nossos filhos.



Na unidade de Neonatologia, lá fui ver quase pela primeira vez os meus rebentos, estava com um aperto no estomâgo, e foi um sentimento que mantive até eles sairem de lá. Quem já teve filhos internados sabe que cada dia é uma surpresa, e que um dia eles estão melhores, no dia seguinte já não se sabe o que se vai encontrar. Com os meus não foi diferente, entraram para os cuidados intermédios, no dia seguinte à tarde passaram para os intensivos e sempre com oscilações.



Confesso que ia com medo de alguma má notícia. Quando o pai me guiou através de um mundo de caixas de vidro e bips metálicos, com pequeníssimos seres todos cheios de tubos e sondas e monitores, apeteceu-me fugir dali para fora. Simplesmente fugir, tanto sofrimento junto, tantas mães deseperadas, e pequenos seres que viram pela primeira vez o mundo através do vidro grosso de uma caixa e muitos que não se sabia se alguma vez veriam outra coisa.



Quando chegamos às "nossas" incubadoras vi que os meus filhos eram dos maiores que por ali pairavam, estavam deitadinhos de rabo para o ar, cada um na sua caixinha. Cheios de sondas, monitores, e tubos. A M. sempre a resmungar, o L. com o seu arzinho plácido. Abri as portinhas da incubadora da M., meti lá as mãos e inclinei-me para falar com ela. Foi um momento emocionante, ela acalmou-se e abriu pela primeira vez os olhinhos, como se o som daquela voz e o toque daquelas mãos lhe despertasse alguma memória longínqua, fixou-me com aqueles olhos ainda inexpressivos, voltou a fechá-los, e ficou sossegada. Depois fui ao L. tão quietinho, tão querido, tão mimeco, foi como a irmã, pareceu reconhecer logo o toque e a voz da mãe e sossegou um bocadinho.



Entretanto chega a médica, que aproveitou para nos dizer que eles estavam a evoluir favoravelmente, mas que ainda nada estava ganho. entretanto aproveitou para me passar uma rabecada por ter ido ter os bebés no hospital particular. Chamou-me inconsciente e disse que se tivesse acontecido algo mais grave com eles nós seríamos os culpados... Senti-me mal... Essa era uma verdade que me perseguia desde sempre e sabia que ela tinha alguma razão. Não toda a razão porque, eles podiam ter nascido num hospital público e terem de ser transferidos para outro por falta de vagas, porque na verdade ninguém supunha que uns bebés daqueles com aquele idade gestacional fossem ter problemas... Mas enfim,ela dizia a verdade, e sei que se o pior tivesse acontecido, iria ser muito dificil para mim conviver com o remorso.



Deram o primeiro leite por biberão à M., 5 ml, ainda me lembro a carita dela quando acabou de beber aquela migalha de leite tipo a dizer "então dão-me o aperitivo, e onde está o almoço?", como não houve mais nada desatou a berrar. Fiquei lá embebecida, sentada numa cadeira entre as "minhas" duas incubadoras, ora ia a um ora a outro, por minha vontade montava lá a tenda e não saía de lá.



Mas a verdade é que tinha de vir, a febre estava num pico e comecei a não aguentar o corpo, caí na cama, tomei um benuron e fiquei encolhida com aqueles arrepios horríveis. No dia seguinte, estava com febre e com o peito todo encaroçado, duro como pedra, tinha caroços até ao pescoço. O bendito leite não saía na bomba, mas tinha subido e estava todo encaroçado lá dentro.



Fui para a maternidade. Ao desconforto da cesareana e da febre, tinha-se juntado as horríveis dores no peito, mas isso não me fazia desistir. Quando lá chegamos fomos para os cuidados intensivos e já não estavam lá as incubadoras dos bebés. durante um curto espaço de tempo entrei em pânico: "Será que morreram e não nos avisaram?", procurei um enfermeira que me deu a boa notícia que tinham passado para os cuidados intermédios outra vez. Estavam fora de perigo os meus meninos. Não preciso de dizer que chorei, acho que está por demais evidente que sim, por isso avanço essa parte antes de começar outra vez a chorar.



Estavam já na sala dos intermédios, só que agora um em cada ponta. Lá andei eu tipo ventoínha, a cair de pé, de um para outro. Foi um sacrificio fisico muito grande, houve uma altura em que pedi uma cadeira para pôr debaixo das pernas, e outra em que me apeteceu deitar-me nos sofás que tinham na entrada do serviço, mas aguentei e de tarde tive a recompensa de poder pela primeira vez mudar a fralda à minha filha e pegar-lhe ao colo, de facto foi aos 2, mas foi a ela primeiro.



Foi uma emoção, devo dizer que ela tinha feito uma cocozada e que eu a mudá-la dentro da incubadora sujei tudo, os lençóis, o colchão, enfim uma verdadeira vergonha... Mas quando a tive no meu colo e lhe dei o biberãozito... Nem consigo descrever o que senti.



Com o L. pude deixá-lo experimentar a mamaroca dorida, mas ele não se demonstrou grande apreciador. Em primeiro lugar porque aquilo não deitava nada, e em segundo lugar porque o biberão era muito mais fácil.



Dali fui para o Hospital onde trabalha o meu médico, porque tinhamos que desencaroçar aquele leite antes que descambasse em mastite. Lá fui submetida a tratamento de choque, injecções de Syntocinon, e vaporizador de syntocinon no nariz, mais duas enfermeiras amorosas agarradas a mim com toda a força a passar toalhas a ferver e a espremerem as ditas cujas. Posso dizer que foi pelo pior que passei até hoje, fartei-me de berrar lá, e cheguei a implorar à médica que me secasse o leite, só desisti porque ela me disse que mesmo que secasse teria de tirar o que estava lá dentro. Foi horrível, e depois de tudo o que se estava a passar sucumbi à autopiedade, e o caminho para casa foi todo feito a chorar, realmente não havia nada que não me acontecesse.

Beijos a todas

23 comentários:

Gisela disse...

Querida, por muito que imagine o teu sofrimento, não devo chegar perto do que sentis-te.

Beijinhos

Sem Desistir disse...

Cada dia tenho uma maior admiração por ti amiga. Não sou mãe e nem sequer consigo igualar tamanho sofrimento. Acredito que tenhas vivido dias de horror que te marcaram para a vida inteira.
Bjs

Tixa disse...

Minha querida...nunca imaginei que tivessem passado por tal sofrimento... mas sabes a tua história...a vossa história é uma lição para todas nós...uma lição de amor, de coragem...de nunca desistirmos.
Obrigada
Um bj enorme de lágrima no olho (e olha que não é nada fácil ficar assim)

Clara disse...

Li-te de empaviada, como há muito não conseguia tirar tempo para ler alguém. Também não tinha idéia do que tinham passado.

Todas temos histórias que nos marcam desde que nascemos, sejam boas ou deveras atribuladas e preocupantes, connosco ou com os nossos.

Fizeste o que havia a ser feito, em relação a tudo o que li, não me consigo imaginar a fazer de forma diferente, se um dia passar por tal.

Aos poucos, agora no presente, os teus meninos vão-se habituando às novas rotinas e espaços.

Para ti, um abraço.

Pensamentos Felizes disse...

estou sem palavras...

Lita disse...

Amiga
os meus parabéns! Os teus bebés são uns grandes lutadores! Eu tive um irmão gémeo que faleceu aos 22 dias de vida com uma sépsis! É uma situação muito complicada e para a ultrapassar é preciso muita luta e muita sorte!
Um beijinho grande para a mãe coragem e para os teus bebés!

Lita

R&L disse...

Sei bem o que é termos de nos arrastar de uma ponta para a outra da sala... Ainda hoje não percebi porque é que não deixam os gémeos ao lado um do outro! Também conheço o sentimento da primeira vez que finalmente os pegamos ao colo... passados não sei quantos dias de nascerem... E o primeiro biberão... a primeira mama... E as benditas enormes e encaroçadas... irra que dói como o caraças!!!

Enfim... já passou, não é?

Beijinhos 4x4

rute29 disse...

Amiga isso é que foi sofrer...
beijinhos!!

Angela disse...

Eu também vou ter a minha Ritinha na Cruz Vermelha, achas que faço muito mal ?? O meu médico trabalha lá e diz que eu não tenho nada com que me preocupar...todas as pessoas que eu conheço que lá tiveram dizem maravilhas e o Hospital aqui de Évora é do pior que há.
Os teus relatos são mesmos fantásticos, ainda por cima veio uma reportagem na Sábado sobre prematuros e a MAC,parece que te consigo ver e aos teus meninos nas fotos da revista.
És uma guerreira especial, tiveste direito a passar por todas as tormentas possíveis e imaginárias. Espero que a vida se lembre disso na hora da recompensa.
Beijos grandes para todos.

Pensamentos e Cª disse...

Bem...estes teus dois últimos relatos deixaram-me mesmo surpreendida. Confesso q não imaginava tudo o q tu e os teus bébés tinham passado!! Porque nunca me contáste estas coisas?
Bem amiga, resta-nos agora o consolo de pensar q o q lá vai, lá vai e agora, com a vida já dentro da normalidade possível, é tempo de olhares em frente e amares os teus filhotes com toda a força do mundo :-)
Beijinhos
Alexandra

amora disse...

Também desconhecia que tivesses passado por isso tudo. Que sofrimento físico e psicológico passaste e que nó na garganta me fizeste sentir. Felizmente que sei que tudo teve um final feliz e que não passou de um susto e de mais uma dura experiência de vida.

Continua com estes relatos fabulosos!

beijo grande

Barriguita disse...

não imaginava... mas agora, se já tinha certezas, sei que és uma Mulher e Mãe com um M enoooooooooooooormeeeeeeeee!

Não se esquecem momentos assim... o Pedro esteve 5 dias longe de mim e foram os piores da minha vida. Mas o melhor de tudo é tê-los aqui, não é?

Beijocas

cris disse...

Como eu acho injusto teres passado por tudo isto, realmente há coisas que nunca vou perceber....
Beijocas

Ana disse...

Não consigo imaginar o que sentiste...
Sei que ganhei forças, que nunca pensei ter, depois que nasceu a minha filha.
O primeiro mês é extenuante para qualquer mãe... dormir 2 horas, na melhor das hipóteses, entre cada mamada, muda de fralda, adaptação às necessidades do bebé... e isto quem tem a sorte que eu tive de ter uma menina calminha e saudável...
Além disso, é preocupações em dobro...

Beijocas ENORMES :****

Nina disse...

Bolas...podes crer, amiga! Nada mais te poderia ter acontecido!
Felizmente tudo se compôs, mas esses momentos vêm muitas vezes à lembrança, não é?
Beijinhos e bom fim de semana!

kitty disse...

Ai amiga, é injusto tamanho sofrimento!
Na altura percebi que as coisas não tinham corrido bem, mas nunca imaginei tal situação...


Bom fim de semana
Beijinho

*CC* disse...

Não dá para imaginar o que sentis-te, mas sei que não foi fácil e faz de ti uma grande mulher.

beijocas
CC & Ricardo

Susana Pina disse...

Minha querida amiga, que sofrimento...
Mesmo depois de já teres os teus bebes, ainda tiveram que passar por tanto. Não é justo...Poruqê??? Porque será que Deus faz estas coisas conosco????
Por muito que tenha sofrido, não consigo imaginar como te sentias naquele momento. felizmente que são só memórias e que a realidade hoje é bem diferente.
Um bj com um aperto no peito
Susana

Anna72 disse...

Mais um relato impressionante! De facto, é preciso uma força extraordinária para lidar com uma situação assim.

Uma beijoca grande com profunda admiração.

Sonia&Mi disse...

Há coisas na vida que nos acontecem e que ficam para sempre na nossa memória, que podiam nunca ter acontecido mas que de certa forma nos fazem crescer, mesmo que desse crescimento tivesse havido sofrimento associado.

Sempre que te leio, ou que leio relatos de mães que tiveram bébés na neonatologia, que sofreram as maleitas todas de um pós parto e pós operatorio, relembro-me e sofro tb. Mas sinto que fomos umas corajosas por termos passado por tudo isso numa altura em que estavamos fragilizadas emocionalmente.

Com isso acho que nos tornamos mais fortes e capazes de aguentar tudo o que daí adevenha.

beijo grande linda.

Lita disse...

Minha querida,

Não consigo sequer imaginar tanta dor junta.
Bolas foi tudo junto, ainda por cima numa altura em que o que mais se deseja é a serenidade do lar.

Mas vocês são uns grandes lutadores e graças a Deus tudo foi superado.

Um grande beijinho,
Lita

carla disse...

Não consigo imaginar o que sentiste, só te posso desejar tudo de bom para ti os teus filhotes e muita coragem.
Bjs

YAMI disse...

Linda..
o que é feito de ti amiga..
os piolhos como estão?
beijocas grandes
yami