sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Bolos & Cª

Com a chegada do grande dia, 15 de Março, anda uma mãe toda contente a tentar organizar o evento com pompa e circunstância, para o primeiro aniversário dos seus pipizes. Depois de ver vários blogs de "bolos artísticos", constatei que a grande maioria era de Lisboa ou arredores, logo tornava o "povo do norte" excluído. Fiz alguns contactos a familiares e amigos, que prontamente me arranjaram contactos de pessoas que faziam os ditos bolinhos, aqui na zona do Porto.

Faço o primeiro telefonema... A pessoa diz que vai estar ausente nessa data. O segundo telefonema... Também. Num blog cujo endereço me foi enviado por uma amiga diz que só aceitam encomendas para Abril. Num terceiro contacto arranjado descubro o motivo desta ausência toda... Não é que vai haver uma feira em Londres e uns Workshops para estes profissionais, precisamente de 13 a 16 de Março.... Grrrrrr, Grrrrrrr!

Agora quê?! Vou ao Modelo comprar o bolo??? Aceitam-se contactos!!!!

Beijos a todas

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

The final Count Down

Era assim que estávamos o ano passado...

Beijos a todas

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Ora bolas

Serve este post para fazer apanágio à primeira palavra compreensível da minha prole, mais propriamente da minha rica filha M. Devo acrescentar que eles não são mudos, só que até agora, só vão pronunciando uma quantidade de papapss, peps, cacs e outros sons que eu por muita boa vontade que tenha e por muito mãe galinha que seja, não posso atribuir significado específico.

Ora, estavam os "papais" em casa de uns amigos, no passado fim de semana (oh pá! Eu sei que já passou quase uma semana do evento, mas não tive tempo para actualizar isto antes), e o pequenos "infantes" sentadinhos à mesa nas suas cadeirinhas, a enfiarem as mãozinhas gorduchas nos pratinhos de arroz que tinham na sua frente, quando entra o cão dos donos da casa. A mãe atenta, acto contínuo diz: "M. olha o cão!" - e a M. mais rapidamente ainda: "Acã" - A mãe fica perplexa e julga ter ouvido mal... A bicheza lá volta a passar por debaixo da mesa, e a M. agora mais alto: "Acã"

Não tinha ouvido mal, estava lúcida (ainda estavamos no príncipio do almoço...), de repente pensei: "Então anda uma "gaija" 9 meses (ok foram só 8) com eles na barriga, cheia de enjoos, cãimbras, e todas as demais maleitas. Anda uma "gaija" a deformar o corpinho de miss... E a primeira palavra compreensível que nos diz o rebento é "ACÃ"????!!! Ninguém merece!

Beijos a todas

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Encontros & Desencontros

Ontem, estava a ler um jornal, e eis que me deparo com uma pessoa que não via há anos. Uma pessoa que fazia parte de um grupo a que pertencia quando era "teenager" inconsequente e andava no liceu. Estava lá porque é sub-director de um grande jornal nacional e recentemente publicou um livro.

De repente fiz um "rewind" na minha cabeça e voltei áquela época e lembrei de tantas pessoas que tinha conhecido e convivido e que a vida tinha levado neste ou naquele caminho, pessoas cujo rasto perdi.

O "M" era uma delas. Sempre foi um rapaz bizarro, muito introvertido, vestia sempre de preto, sem ser gótico (até porque naquela época ainda não se sabia o que isso era), e comprava religiosamente o "Blitz" (jornal da época que nem sei se ainda existe. Confesso que nunca tive pachorra para ler mais do que umas linhas, mas adiante...).

Cínico assumido (o "M"), só ouvia música "estranha", e para ele grupos com os U2 e os The Cure eram "rubish" para galinhas doidas (nós, o mulherio) ouvirem. Era no entanto uma pessoa com uma cultura geral vastíssima (fruto da leitura do "Blitz" claro!), e com um espírito crítico super acutilante, daí o vir a ser um jornalista de sucesso.

Devo acrescentar que efectivamente o "M" (super jornalista) não tinha grande sucesso com o mulherio, porque realmente nós gostavamos deles menos bizarros e com gostos mais normais, daí que ele lia o "Blitz" e os "oitros" ficavam com as chavalas... Mas ele era bom rapaz... Fiquei feliz por saber que está a ser bem sucedido profissionalmente.

É engraçado, que olhando para trás verifico que conheci imensas pessoas que não sei se são vivas ou mortas. É assombrosa forma como peneiramos as amizades, e mantemos mais contacto com esta ou com aquela pessoa, na vez daquela outra. Os meus melhores amigos e amigas, são ainda dessa época, e a esses juntei mais uns quantos que conheci na faculdade e a esses outros que fui conhecendo aqui e ali. Mas se pensar bem na quantidade de pessoas que cruzou e cruza a minha vida, vejo que é realmente fantástica a maneiro como fazemos a selecção natural das nossas amizades (ás vezes lá temos uma surpresa desagradável, mas isso agora...).

Beijos a todas

segunda-feira, janeiro 21, 2008

O som do silêncio

Há dias em que acordamos com o "espírito" cansado, dias em que a nossa mente deambula por todos e mais alguns assuntos menos aqueles por onde devia andar. O trabalho não sai, a energia esvai-se, e tudo o que fazemos é deambular pelo mágico mundo dos pensamentos oblíquos.

Neste (felizmente poucos) dias de falsa preguiça mental, discorremos a nossa vida de todos os ângulos possíveis e imaginários. Pensamos e analisamos o que fomos, o que somos, o que fizemos, o que fazemos, e o que deveríamos ter feito e deixamos para trás. Lembramos tantas coisas que estavam no sítio mais recôndito do nosso baú da memória, e sorrimos parvamente ao revermos mentalmente este ou aquele acontecimento.

É nestes dias perdidos que nos apetece pegar no carro e ir sem rumo ao som de uma boa música e parar numa praia qualquer. Meter os pés descalços na areia e ficar ali... Só a olhar para o mar e a ouvir o som das ondas...

E de repente, alguém me chama. Interrompi por momentos este devaneio. Não há respeito... Agora que estava embalada pelo som do mar, perdida num momento de silêncio tão meu. Agora que a minha vida é pautada por choros, sorrisos e chilreares e não existem momentos de introspecção consentida, e faz-me tanta falta... Falta-me o momento interior em que vislumbro a minha alma... Só eu e ela... Só eu e ela...

Beijos a todas

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Bonança

Depois da tempestade... Uns dias de bonança... E nada melhor que uma bela imagem de pôr do sol, para animar estes dias frios e chuvosos de Inverno.

Estivemos doentes: Primeiro a M, logo de seguida o L. depois a M. novamente e para finalizar a mãe. O cansaço aliado a um estado gripal foi muito doloroso. Mas felizmente já passou.

Fizeram ontem 10 meses, os pipizes, estão grandes e espertalhaços, quando olho para os bebés que foram fico impressionada com a evolução, estão lindos...

Fui inscrevê-los na escolinha, só vão em Setembro, mas já fui fazer a inscrição. Fiquei com o coração apertado, à medida que ia percorrendo as instalações para conhecer o espaço... É uma boa escola, com boas condições, e para Setembro ainda falta muito tempo... Mas ... O tempo passa tão depressa... E acho que me vai custar tanto deixá-los...

Beijos a todas

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Mãe de gémeos...

Sem sombra de dúvida!
Beijos a todas

quarta-feira, janeiro 02, 2008

2008

Depois daquele que foi "O Ano" de 2007, surge a necessidade de se fazerem as apresentações ao novo ano, o de 2008. E digo fazer as apresentações, porque "O Ano" 2007 será dificil de igualar pela positiva,logo, qualquer ano vindouro terá a responsabilidade acrescida de se tornar tão bom ou melhor que "O Ano".

Dizem que este ano será de mudanças, de rupturas (os astros claro...), o que há partida não será um grande prognóstico, mas como por cá os prognósticos só se fazem "no fim do jogo", eu espero que este ano traga para mim e para os meus: Saúde, serenidade, felicidade e... Algumas "massitas" para gastar (claro!).

Desejo a todas as leitoras deste blog, um excelente 2008.

Beijos a todas

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Bípedes

E parece que ainda ontem nasceram...

Beijos a todas

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Feliz Natal 2007


E no sapatinho de cada uma.... Um milhão de sonhos realizados!
São os meus votos neste Natal tão especial!
Beijos natalícios a todas

sábado, dezembro 15, 2007

Mais um post de "boubelita"


Parece que actualmente pouco mais faço do que escrever posts "boubelitas", mas prometo que em breve voltarei com enormes textos literários onde farei apenas pequenas referências veladas aos pipizes.

Mas, hoje não podia deixar de aparecer, porque passados 9 meses de terem nascido e após algumas noites muito mal dormidas, eis que ao dar a papinha ao Locas sinto qualquer coisa a raspar na colher -"Eh lá!!??" -penso eu. Isto será mesmo o que eu estou a pensar? volto a passar lá a colher... E era... O primeiro dente do meu pipizio (depois de meses a ameaçar e de carradas de baba).Fiz a festa ali mesmo! Chamei o pai que veio a correr ver e ficamos os dois extasiados a meter a mão na boca do pobre, que apesar de não entender nada do que se estava a passar, estava todo contente com toda aquela atenção e ria-se, ria-se muito.

Já duas noites antes estavamos os 3 na brincadeira no meu quarto (antes de eles irem dormir), eles estavam os 2 na cama do L.,e eu em cima da minha a fazer palhaçada, entretanto fui lavar os dentes e quando regresso estava o L. de pé agarrado à beira da cama, foi a primeira vez que o fez e fiquei muito comovida (que querem uma mulher dá-lhe para isto) - Estão a crescer... E é tão bonito!..."

Bem, agora chega de "boubelices"!

Beijos a todas

terça-feira, dezembro 04, 2007

Faz-se Natal...



E este ano, depois de alguns Natais sem espírito, faz-se Natal por cá. A árvore saíu do armário e os enfeites renovaram-se: Por eles, para eles.
Mais cedo do que o habitual tirei a árvore empoeirada do armário onde se encontrava há alguns anos esquecida e abandonada. O espírito não pedia, a magia do Natal andava perdida. Não fazia árvore, não enfeitava a casa, simplesmente não me apetecia. Este ano, pelo contrário, o Novembro ia alto quando a fui buscar, e perante uma assembleia excitada nasceu a primeira árvore de Natal do resto das nossas vidas (e que sejam longas).
Eles excitadissímos, sem perceberem muito bem aquilo que se estava a passar, tentavam deseperadamente alcançar aquelas preciosidades brilhantes que jaziam no chão perto dos brinquedos. Agitavam delirantemente braços e pernas e davam gritos que suponho serem de excitação. Religiosamente, fui desembaraçando cada ramo da árvore, para depois os enfeitar, com o mesmo vagar e cuidado com que se reza uma oração. Os meus olhos postos neles, sempre acompanhando cada gesto com palavras e explicações do que se estava a passar. Sei que não entendem o que eu digo, mas apraz-me pensar que com as minhas ladaínhas estou a contribuir para que mais rapidamente reconheçam as palavras e os gestos de amor que as acompanham.
Quando terminei sentei cada um deles à vez perto da árvore para poder registar a reacção.
O L. todo contente, agarrou de imediato umas luzinhas e meteu-as na boca, as fotografias captaram exactamente aquilo que lhe ia na alma e foi dificil tirar uma com ele a olhar para a máquina. Por pouco não lhe caía a árvore na cabeça.
A M. Arrancou um enfeite vermelho e, claro boca com ele, também ela, excitadíssima queria agarrar aquele objecto que esteve uma porção de tempo afastado dela e tinha tantas coisas giras coloridas e brilhantes. Ainda consegui fazer umas fotos giras dela.
quando chegam a casa, o estaleiro das cadeiras é na sala, mesmo ao lado da árvore, que está sempre iluminada, ficam sempre a olhar para ela e tentam sempre tirar de lá qualquer coisita.
Beijos natalícios a todas

terça-feira, novembro 20, 2007

Eles

Tão diferentes quanto a Lua e o Sol, delimitaram de forma certeira e definitiva os pontos nevrálgicos do meu ser desde o dia em que nasceram, equitativamente em partezinhas iguais, porque não se pode gostar mais do Sol do que da Lua, e porque no amor por um filho , não se consegue distinguir onde começa um e acaba outro. Somos os 3 carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue, somos apenas 3 apêndices de um só ser .

Não foi amor à primeira vista como nas novelas, foi um sentimento que foi crescendo e se foi instalando, ganhando terreno. Se no primeiro momento, só senti um alívio muito grande por um final de gravidez muito penoso. Algumas horas depois nascia dentro de mim um sentimento que não consigo descrever com exactidão, era um misto de saudade com uma opressão no peito, no fundo era uma sensação de solidão insuportável. Imagino que é o que deve sentir uma pessoa a quem tenham amputado um braço ou uma perna. Depois de tantos meses de comunhão, ali estavamos, eu e eles separados e sózinhos.

Quando os voltei a ver, fui invadida por um sentimento irracional, ali estavam eles, tão indefesos, tão sózinhos… Senti que sofriam também, depois de meses os 3 juntos, ali estavamos uns para cada lado. Nesse momento soube que era mãe, soube que por eles era capaz de morrer se me fosse pedido, soube que a minha vida não seria mais minha a partir daquele momento, seria deles e para eles.

É engraçado que a partir de uma certa idade tomamos por certo a nossa sabedoria e julgamos poder, interior e racionalmente, descrever todos os nossos sentimentos. Julgamos que aquele sentimento ao qual chamamos amor já nos é familiar, e que sabemos à partida todas as nuances que ele pode apresentar, afinal já amamos: Os nossos pais, os nossos irmãos, o nosso companheiro ou companheira.

Mas, a verdade, é que nos deparamos com um tipo de sentimento absolutamente inédito que nos confunde e volatiliza de forma intensa. É um sentimento que se altera a cada dia que passa e quando julgamos que ele não pode crescer mais surpreendemo-nos ao ver que ele se tornou ainda mais intenso.

Este deve ser provavelmente o primeiro post que dedico exclusivamente aos meus filhos e ao sentimento que nutro por eles. Não por só agora ter percebido o amor que lhes tenho, mas pela razão púdica de não falar de sentimentos que tantas de procuram e ainda não puderam sentir. Não achei correcto da minha parte estar a alardear os meus sentimentos num submundo que vive em busca desse mesmo sentimento. Por isso comecei estes relatos pela parte menos boa, porque a maternidade não são só rosas, tem espinhos, muitos espinhos. E desengane-se quem acha que vai achar na maternidade a resolução de todos os seus problemas e que vai encontrar a realização pessoal total e absoluta e a felicidade inesgotável, a felicidade da maternidade é feita de pequenos nadas que todos juntos completam o puzzle da alegria e felicidade.

Se é verdade que me lembro dos meus pensamentos mais escuros e dos momentos mais dificeis que até agora enfrentei, também não é menos verdade que me lembro que de todos os outros momentos doces e de puro amor que passei com eles.

No dia 21 de Maio o L. sorriu pela primeira vez, aquele sorriso desdentado com a boca toda aberta que ainda hoje o caracteriza, foi há tarde quando acabava de acordar, lembro-me que fiquei surpreendida e comovida até às lágrimas, o meu filho tinha acabado de dar o seu primeiro sorriso para mim, porque me reconheceu quando acordou, porque ficou feliz de ver-me ao acordar. Ainda hoje é com um sorriso desdentado que me presenteia de manhã ao auvir a minha voz… Aliás é também com o mesmo sorriso desdentado que sorri ao meio da noite quando não quer dormir e eu estou morta de sono e com vontade de o “matar” por ele não me deixar dormir.

É um doce o meu menino, meigo, ternurento e muito carente. É mais preguiça que a irmã e mais calmo na maior parte das vezes. Chora em desespero de causa: fome e sono, de resto mesmo doente é uma doçura. Teve recentemente 2 otites e só chorava mesmo quando lhe tocávamos no ouvido, de resto tem sempre o sorriso (desdentado) para nos presentear. Há noite mais agitado que a irmã, não sei se por feitio, se por insegurança, se por puro miminho… Não há noite que não acabe agarrado à mãe. Não sem antes acordar umas 1020 vezes a choramingar e eu outras tantas vezes lhe pôr a mão por cima da cabecita para o ajudar a adormecer outra vez. Quando não aguento mais, rapo do rapaz da cama dele e meto-o na minha, bem encostadinho a mim. Por mim dormia lá todas as noites, mas a vida não é fácil e quero que ele se habitue ao máximo na cama dele, depois… Bem ele tem uma irmã…

Esse é um dos grandes problemas das mães de gémeos, a impotência dos nossos 2 braços perante os nossos 2 filhos quando ambos requerem a nossa atenção, pegamos num mas o nosso coração fica partido ao olhar para os olhos do outro magoado por não ser ele o eleito…

Ela, a minha rainha, é chorona, exigente, volntariosa e independente. Adora colo, desde o primeiro momento em que o provou, mas não gosta muito de ser “amassada”, acarinhada, beijada, é o colo que ela quer, quando ela quer e ela vai lá estar como lhe apetece (ao alto, de barriga para baixo, deitada, sentada, etc…). Estranhona, rejeita aleatoriamente as pessoas, ainda não percebi qual o critério de selecção, mas principalmente os homens. O processo é: Chegam perto dela, e olham para ela (nem precisam falar), ela desata no maior berreiro, como se a estivessem a matar, de sublinhar que este berreiro é sempre acompanhado por lágrimas enormes, que lhe escorrem copiosamente pela cara abaixo. Só se cala no colo da mãe e só sossega quando a pessoa em questão for embora. Ora, este feitiozinho deixa-nos muita vezes em situações constrangedoras.

Mas é espertalhaça, é linda, tem um sorriso radioso e faz 2 covinhas ao sorrir, bate palminhas e sabe que faz o maior sucesso com essa gracinha, apreende rapidamente tudo aquilo que lhe dizemos e tenta pôr em prática. Começa agora a amaciar… Já gosta mais de miminhos e de beijinhos… Da mãe claro!

O sentimento que trago no peito é de pura exaltação e preocupação constante. Não desligo o meu pensamento deles como se só eles existissem. Dou por mim muitas vezes a sorrir no meio do nada, só porque me lembrei da expressão doce do L ou de alguma travessura da M. Telefono 500 vezes por dia para saber se estão bem (apesar de estarem com as avós, com todo o mimo e cuidados do mundo) e sempre que posso pego no carro e vou vê-los, nunca me canso de olhar para eles, e quando os adormeço à noite olho para aquelas carinhas serenas e peço a Deus para que o caminho deles seja um caminho de rosas sem espinhos, (pelo menos não muitos), e quando vejo um “drogado” na rua a pedir esmola para dar que fazer ao vício penso que ele será filho de alguém e fico com o coração apertado, e desejo com muita força que nunca os meus tenham de passar por isso.

Beijos a todas

sexta-feira, novembro 16, 2007

8 meses deles


O tempo voa, e confesso que tenho andado com muita falta de tempo para cá vir. No entanto queria deixar-vos as "notícias" dos 8 meses dos pipizes.
Então o L. com 10 kilitos (coitado come muito mal...) e 75 cm, já veste roupa de 18 meses porque a de 1 ano já lhe está curta. Está lindo e cada dia mais mimalheco. As noites... Bem... Não vou comentar.
A M. com 9 kilitos apenas, começa a ficar atrás do irmão, mede 73,5 cm e para mulher está mais desenvolvida do que ele para rapaz, ou seja ela já ultrapassou o percentil 95 na estatura e ele está no percentil 95. Vamos ter uma "moça" de 1,80m. Está linda e espertalhaça, já bate palminhas e está cada dia mais cusca. Dorme bem melhor que o irmão (enfim... "gajos").
Se tudo correr bem só temos de ir ao pediatra em Fevereiro, pois os pipizes já comem de quase tudo, vou começar a treiná-los a "comerem" sózinhos para eles começarem a ter contacto directo com a comida... Vai ser lindo!
Volto com novas aventuras!
Beijos a todas

segunda-feira, outubro 29, 2007

Maternidade versus trabalho ou o reverso da medalha

Andava a vaguear noutro dia pelos blogs "meus amigos" e eis que vejo um tema abordado por esta amiga, que me despertou curiosidade. Achei engraçado ela considerar-se "doméstica", porque confesso era uma denominação que não ouvia há anos. Entretanto, em mais um pequeno zaping, vi que existem outras mães a "tempo inteiro", e fiquei surpreendida. A esse propósito decidi uma vez mais massacrar os meus leitores com um extenso rol de opiniões das minhas, porque como sabem gosto de opinar acerca de tudo e mais alguma coisa.

Eu sou uma mãe de carreira, sempre fui uma mulher que preza o seu trabalho e que gosta do que faz (ás vezes enfim…). Lembro-me que em ínicio de vida cheguei a trabalhar 32 horas seguidas.

Esse foi um dos motivos pelos quais adiei a maternidade, sempre com dedicação absoluta ao trabalho e horários pouco definidos, sabia que seria extraordinariamente dificil para mim gerir a vinda de um filho. E a minha opinião era (e é) de que não se deve fazer nascer um filho para os outros tomarem conta mais do que o realmente necessário. Tenho exemplos de pais dedicados a carreiras que o único amor que dedicam aos filhos é aquele que o dinheiro pode comprar, não queria isso para mim nem para os meus filhos.

Acredito que um dos factores que contribuiu para uma longa caminhada sem filhos (que teve o desenlace que já se conhece), foi o permanente stress a que estava sujeita. No entanto, quando o apelo da maternidade falou mais alto, decidi que iria dar um tempo a mim mesma para ver se conseguia ou não ter filhos. Libertei-me de alguns pontos de stress e decidi que no prazo de 1 ano teria de ver se conseguia ou não. Nesse prazo o trabalho seria para “ir levando”. Tinha obtido um estatuto que me permitia certas liberdades e por isso aproveitei-o.

É evidente que com a gravidez e os problemas que tive a partir da 21ª semana de gestação, com a minha retenção forçada em casa 3,5 meses antes do previsto, as coisas complicaram-se. Porque se há trabalhos em que nós podemos delegar e vir para casinha todas contentes, outros há que dependem de nós e que não podemos delegar, nem podemos deixar de os fazer. Por isso eu mesmo em casa tinha de estar sempre em contacto e sempre a trabalhar dentro da medida do possível.

Lembro-me que quando era preciso deslocar-me para qualquer coisa que era preciso tratar “in loco”, tinham que me vir buscar e eu lá ia a empurrar a barriga, sempre com um medo de morte de estar a fazer alguma asneira. Lembro-me de ter discutido aumentos salariais em Janeiro, na minha sala de roupão e pijama. A minha sala era o quartel general, estava cheia de computadores, papelada e capas de arquivo por todo o lado.

Se por um lado, era stressante ter de trabalhar e cumprir prazos e estar sempre ao telefone, por outro lado, acredito que foi essa “semi” actividade que me ajudou a manter a sanidade mental durante aquele tempo de reclusão. Se não tivesse nada para fazer tinha morrido de tédio.

Quando nasceram os Pipizes, tinha tudo organizado para mais ou menos 15 dias não ter de fazer nada ( e foi a sorte). Por isso, logo que chegamos a casa vindos da Maternidade, tive de começar, dentro do tempo que não tinha, a tratar da papelada porque o Ministério das Finanças não queria saber se eu tinha tido 2 filhos ou não, e os prazos são para cumprir. Daí eu dizer que ás vezes tinha um braço para um Pipi, outro para o computador e um dos pés a embalar o outro Pipi.

Naqueles momento iniciais mais negros, sentia-me culpada por estar a dividir o tempo que devia ter só para eles com o trabalho, e sentia-me mal, muito mal mesmo. Acrescendo a esse sentimento de culpa, o cansaço, e o receio de deixar escapar alguma coisa importante, ajudaram a tornar esses dias ainda mais dificeis.

Tentei ser naqueles primeiros tempos, e apesar dos pesares, uma mãe sempre presente, apesar de ter a quem os deixar para ir aqui ou ali, preferi sempre ficar com eles, e na vez de aproveitar para dormir umas sonecas quando eles estavam mais calmos e dormiam as suas sestas, aproveitava para trabalhar nessas horas em detrimento do meu próprio descanço (que me fazia tanta falta).

Agora já a trabalhar a tempo inteiro, não abdico de vir para casa mais cedo para estar com eles, não saio de casa sem lhes dar o pequeno-almoço (a papa), há hora de almoço estou com eles pelo menos 1 hora, e faço questão de ser eu a dar-lhes o jantar, o banhinho e brincar com eles sempre um bocadinho quando chegam a casa e antes de irem dormir.

Recentemente cumpri uma década de casada, eu e o pai estivemos para ir passar um fim-de-semana fora, só os 2 para comemorar, afinal não é todos os dias que se fazem 10 anos de casados. No entanto, à última, não tivemos coragem para os deixar “sózinhos”, sabemos que já estão habituados às coisas deles, e que lhes iria custar ficar fora do seu ambiente… Ficamos com eles e foi a melhor forma de comemorar, sem sombra de dúvida.

Ser “mãe a tempo inteiro”, seria sem dúvida um grande desafio, mas quando falo de ser mãe a tempo inteiro falo só disso mesmo, ter alguém que cuide da casa, das refeições, da roupa, e ser só “Mãe”. Porque, confesso que o trabalho doméstico me aborrece de morte, e apesar de ser boa “dona de casa”, muito organizada e boa cozinheira, não gosto da rotina desse trabalho. Gosto de arranjar umas coisas bonitas e fazer uns jantares elaborados fora isso pouco mais…Mas isso seria num mundo ideal, no mundo real tenho de ser Mãe, trabalhar e ir tratando das coisas da casa “a meias” com a mulher-a-dias (eu e mais milhões de mulheres por esse mundo fora).

Admiro quem tem coragem (e quem pode evidentemente) para se dedicar exclusivamente à maternidade ao “house keeping”, eu não teria essa coragem, até porque iria significar uma dependência financeira de “alguém” e a minha independência financeira foi algo que sempre prezei, talvez por vir de um lar onde tive uma “mãe a tempo inteiro” com o respectivo “house keeping” anexado, por vezes existiam situações que me levaram a fazer uma jura cruzada de que jamais em tempo algum iria depender financeiramente de alguém “so help me god”.

Beijos a todas

terça-feira, outubro 23, 2007

“Baby blues”

Em mais um retrocesso no tempo, e analisando agora mais friamente, acho que nenhuma mulher, quando tem o primeiro filho está realmente preparada para ser mãe, por maior que seja o seu desejo. Então quando são gémeos, a coisa ainda se complica mais.

Tenho 2 amigas mães de gémeos, e ainda recordo a minha reacção quando, na altura, elas me comunicaram que iriam ter 2 bebés: “Ai meu Deus!” – sei que não foi uma resposta simpática, mas na altura foi o que me saíu. Isto numa altura em que eu não imaginava ou sequer me passava pela idéia que iria passar pelo que passei, e que a palavra “gémeos” fazia parte de um dicionário que eu não conhecia. Em todo o caso, na minha cabeça imaginava que um nascimento duplo não deveria ser nada (mas nada mesmo) fácil, daí a minha reacção “pouco simpática” aquando das comunicações.

Quando estava grávida foram diversas as reacções das pessoas ao saberem que eram 2. surpreendeu-me, no entanto, porque a grande maioria ficava em êxtase profundo e dizia ter o grande sonho de ter gémeos, então quando eu dizia que era uma casal, ainda mais extasiadas ficavam.

As minhas queridas amigas mães de gémeos, diziam-me sabiamente: “Amiga, vai ser um trabalhão!” – ao que eu respondia prontamente – “Eu sei, estou preparada!…” – elas retorquiam: “Ninguém está preparada até ao dia que eles nascem.”.

“Ninguém está preparado até ao dia que eles nascem”, verdade mais verdadeira que ouvi até hoje.

Os pipizes enquanto estiveram na maternidade, eram uns “come e dorme”, e como nós não podiamos passar a noite com eles, não tinhamos a verdadeira noção da realidade, E apesar de eu ter de acordar para tirar o “parco” leite com a bomba, lá conseguíamos descansar um bocado de noite.

No dia em que os trouxemos da maternidade, lembro-me que vinha no banco de trás sentada orgulhosamente entre as 2 cadeirinhas, eles eram tão pequenos que quase nem cabiam nelas. Saímos com a indicação expressa de lhes darmos de comer de 3 em 3 horas, tinham na altura mais ou menos 2400grs, e precisavam de ganhar peso.

A responsabilidade era agora nossa, tinhamos finalmente os nossos filhos connosco, para preencherem os berços vazios no nosso quarto, mas não existiam enfermeiras, médicos ou alarmes prontos a disparar caso alguma coisa estivesse a correr mal. E mais… Por mais que procurassemos, não existia “manual de instruções”…

Toda essa responsabilidade e insegurança de “mãe de primeira viagem”, juntamente com todo o stress acumulado pelas situações vividas nas semanas anteriores, mais as “benditas” alterações hormonais despoletadas pelo parto, foram uma mistura pouco simpática, e rapidamente comecei a acusar o cansaço.

As primeiras noites foram surreais: Acordar, mudar a fralda, dar de mamar aos 2, pô-los a “arrotar” e deitá-los a dormir, tentar dormir até dali a 1 hora e meia 2 horas no máximo. Quando estava a conseguir adormecer, eis que o bentido despertador dava sinal outra vez e tinhamos de começar tudo de novo, e uma e outra vez, uma noite atrás da outra.

A privação do sono deve ser da facto das coisas mais horríveis que nos acontece, a nossa cabeça fica baralhada e o cansaço acumulado impede-nos de reagir. Tenho noção que nessa altura muitas vezes perdi a noção de tempo espaço e mesmo da própria realidade. Acordava e nem sequer sabia onde estava quanto mais o que tinha de fazer a seguir. É uma sensação estranha muito estranha mesmo.

Entretanto os meus anjinhos começaram a transformar-se em “diabinhos”. E choravam, choravam, choravam. As benditas cólicas atacaram em força e eles berravam e torciam-se e torciam-se e berravam, e dias e noites e noites e dias. Talvez fose por causa do leite artificial, ou da medicação que tinham feito no hospital, não sei.

Existe, hoje em dia uma grande pressão para a amamentação, e eu sou a favor dela. Mas a verdade é que e além das “passas do Algarve” que passei para desencaroçar o leite, nunca fui uma grande leiteira. Lembro-me de estar lá nas salas das bombas do leite (ordenhómetro como eu chamava), e olhar invejosamente para as outras mães que com grandes bicos e jactos enchiam grandes biberões, enquanto que eu nunca ia além do 40/50 ml a muito custo.

O L. nunca quis a mamoca, depois de ter provado o doce sabor do biberão, achou desnecessário estar ali a puxar quando com a tetina a coisa era muito mais fácil. A M. pegou, mas mamava para aí durante 1 hora e eu ficava com a idéia que a pobre não tinha comido nada. Assim, dava numa mamada à M. e depois tirava com a bomba para dar ao L pelo biberão, pelo que o tempo que eu não passava a dar de mamar, passava agarrada à bomba a tirar uns míseros mls de leite. Durante a noite desisti porque demorava quase o tempo todo entre mamadas e realmente não aguentava mais. Os meus sinceros parabéns às mães de gémeos que conseguem amamentar, eu não consegui. O leite secou quando eles fizeram 1 mês mais ou menos.

Por esta altura já andava atacada com os “baby blues”, e perguntava a mim pópria o que é tinha feito, só me apetecia fugir e voltar à minha vidinha antiga de “sombra e água fresca”. Só dizia para mim própria: “Mas ser mãe é isto???” – questionei muitas e muitas vezes as minhas opções, nas alturas em que eles estavam mais inquietos.

Lembro-me que passei várias tardes com a M. ao colo com ela a berrar e a contorcer-se e eu sem poder fazer nada, adormecia-a, deitava-a e ela parecia uma mola logo que a pousava na cama começava a berrar outra vez…

Lembro-me dos 2 a chorarem com fome e eu sentada no chão entre as espreguiçadeiras com um biberão em cada mão a tentar dar-lhes de mamar e o L. a querer vir mamar para o colo e a chorar desalmadamente…

Lembro-me de estar a trabalhar no computador com um no colo e a abanar outro no chão na espreguiçadeira…

Lembro-me de um dia particularmente dificil, ao fim da tarde a dar-lhes banho com eles os 2 a chorarem em uníssono, sem se calarem e de eu estar a chorar também, desesperada e pensar em como gostaria de apagar aquele momento e não estar ali a vivê-lo.

Mas também me lembro do primeiro sorriso dos meus filhos, das primeiras “palradelas”, dos primeiros movimentos coordenados, da primeira papa, da primeira sopa, de olhar para eles a dormirem e chorar de felicidade por eles estarem ali.

Foram sentimentos antagónicos que senti naqueles primeiros meses, mas que foram evoluíndo juntamente com o crescimento deles. Já não imagino a minha vida sem eles. Continua a ser um trabalho exaustivo, e as noites ainda são mal dormidas, mas ao ver o sorriso deles ao acordarem, ou quando os vou buscar, saber que eles já conhecem a mãe e que quando ela chega já querem disputar o colo, os mimos… Não há nada que se compare a esse amor tão maior.

Beijos a todas

quarta-feira, outubro 10, 2007

"nascer prematuro"

Durante o tempo que estivemos na neonatologia, posso dizer que aprendi muita coisa. De facto, só quem passa por um serviço destes, tem noção de como é possível a vida humana ser ao mesmo tempo tão frágil e tão resistente.



Com os pipizes fora de perigo, pude "relaxar" um pouco mais, e pude começar a olhar ao que se passava à minha volta. Aos outros pais que ali estavam horas a fio, como eu, a guardar as incubadoras dos seus bebés. O que vi, deixou-me estarrecida. Existiam ali seres humanos tão, mas tão pequenos que julgava não ser possível existirem, quanto mais estarem vivos.



Bebés nascidos com 26, 28, 30 semanas de gestação, uns ventilados e cheios de tubos e sensores, outros somente com tubos e sondas... Impressionante, os meus perto daqueles eram uns gigantes e estavam definitavemente desenquadrados, e o meu sofrimento perto daqueles pais que ali viam os seus pequenos filhos a lutarem desesperadamente pela vida, um dia atrás do outro, uma semana atrás de outra era pequeno, muito pequeno.


Quem já passou algumas horas num serviço de neonatologia sabe que naquelas horas “mortas”, em que os bebés estão todos a dormir, aquele zumbido das incubadoras é bastante relxante para quem anda esgotado, e ao olharmos os bebés adormecidos, ao sentirmos o calorzinho da sala e ouvirmos aquele barulho, só apetece deitar e dormir também.


Nas horas das mamadas tudo se altera, o serviço parece uma colmeia que ganha vida de repente. Acendem-se as luzes, ouve-se o choro dos bebés, e vê-se uma grande azáfama de volta das incubadoras. Na maior parte estão lá as mães, ou os pais, ou ambos. No entanto existem aqueles abandonados pela vida e sorte que estão sózinhos, ao cuidado das enfermeiras, e que sózinhos permanecem durante horas e dias, porque ninguém está para perder grande tempo de volta deles, são condenados… Até para nascer é preciso sorte.


Durante os dias que por lá estive, existiram alguns episódios que me marcaram, falarei apenas de alguns para não ser exaustiva, porque poderia falar de eventos mais ou menos agradáveis durante horas a fio.


A Isabelinha era uma menina nascida com 29 semanas de gestação, já estava lá no serviço há 1 mês quando entraram os gémeos. Nasceu com 850 gramas de peso. Na altura estava já com 1300 grs. A mãe da Isabelinha era daquelas que estava lá de manhã à noite, tinha uma filha de 3 anos e era a minha “vizinha da frente” da M., a Isabelinha estava bem, respirava sem nenhum tipo de auxílio e estava só a aprender a “mamar” e a ganhar peso, mesmo assim era pequena, muito pequena. A mãe esforçava-se por lhe dar os míseros 20 ml por biberão, mas ela raramente conseguia mamar até ao fim, o resto lá tinha de ir pela sonda. Estava lá no dia em que pela primeira vez conseguiu mamar tudo até ao fim, foi uma alegria… Estava lá também quando a passaram da incubadora para um berço, outra vitória e outra alegria.


Outro bebé que estava lá nascido com 26 ou 27 semanas de gestação, micro, muito micro, não teve a sorte da Isabelinha, esse estava noutra sala, e apesar de estar lá já há algum tempo, o veredicto não era nada favorável. Estava lá por perto quando ouvi a médica dizer aos pais que ele teria lesões cerebrais irreversíveis. Fiquei gelada, não consegui evitar as lágrimas que me começaram a escorrer pela cara abaixo, fui para as minhas incubadoras e pedi com todas as minhas forças para nunca ter de ouvir um veredicto daqueles. Não consegui imaginar a dor daqueles pais ao saberem que o seu filho teria à partida, muito poucas chances de ter uma vida normal.


O caso que mais me impressionou foi o da Inês, menina nascida com o tempo de gestação todo mas com uma deficiência cardíaca grave, teria de ser sujeita a uma cirurgia de alto risco que teria de ser realizada no HSJ, estava ali apenas a fazer exames e a curar uma infecção grave que tinha apanhado. Para além do problema cardíaco tinha uma deficiência cromossomática, o que a impediria de, caso sobrevivesse, de vir a ter uma vida normal. Era uma bebé linda, gordinha. Era das abandonadas pela vida e sorte, nunca tinha ninguém com ela. E como se não bastasse o saber que o mais provável era ter poucos dias de vida, iria ter um sofrimento atroz numa cirurgia (a meu ver descabida porque sem grandes esperanças), aquela criança só tinha as enfermeiras para tratarem dela. Não tinha a mãe nem o pai, que devem ter preferido ignorar os seus problemas do que ficar um dia atrás do outro ao lado de uma filha que se sabia iria perecer ou na melhor das hipóteses iria ser um ser dependente e com graves problemas para o resto da vida. Era muito raro aparecerem por lá, acho que só os vi uma vez.


Tinha uma pena infinita daquela menina, mas ninguém se podia chegar perto dela, ou melhor dizendo, nos serviços de neonatologia ninguém pode andar a pairar pelas salas ou ir espreitar as outras incubadoras, temos de nos limitar às nossas, o que é muito correcto. Por isso, todos sabiamos da história da Inês, mas ninguém lhe podia dar um afago de carinho ou sequer ir vê-la ou falar com ela.


Perante estes cenários acho que me consciencializei que estava a ser lamechas demais, os meus pequenos estavam bem, eu dentro do possível estava a recuperar bem, e realmente dentro de tudo o que tinha acontecido tinha tido uma sorte incrível: Fiz uma FIV, engravidei de gémeos, um rapaz e uma rapariga, consegui aguentar a gestação até ás 36 semanas, tive 2 bebés grandes e eles estavam ali “alive and kicking”, e sobretudo ao que tudo indicava saudáveis e muito perfeitos. Era (sou) de facto uma pessoa com muita sorte.


Dediquei-me a gozar os meus bebés, e a apoiar quem precisava do meu auxílio. Quem me conhece sabe que sou extrovertida e durante os dias que estive na neonatologia e depois quando estive na fototerapia, conheci muita gente e conheci muitas histórias, posso gabar-me, ainda hoje quando vamos à maternidade do pessoal nos vários serviços se lembrar de mim e dos “gémeozinhos” (forma como eles os tratavam). As médicas ainda hoje, quando eles vão às consultas, dizem carinhosamente “os meus gémeozinhos”.


Quando saímos da neo, passamos para uma outra sala de cuidados intermédios, onde estavam os bebés a fazer fototerapia, os bebés que como os nossos estavam a terminar medicação ou aqueles bebés que estavam abandonados à espera que a Segurança Social os encaminhasse. Era a sala onde os bébés vinham receber os primeiros tratamentos depois de saírem do bloco de partos e antes de serem entregues às mães.


Felizmente, quando entramos estava só lá uma bebé a ganhar peso, e nos dias seguintes iam entrando uns para a fototerapia, outros com mazelas pós parto, mas na generalidade não estavam lá muitos o que me deixava mais sossegada. Primeiro por causa das doenças, segundo porque em termos de segurança, aquilo era menos restritivo que a neo, e tinha medo que alguém “arrancasse” com as minhas pérolas.


Enquanto lá estive apareceu um bebé que foi abandonado, tinha 2 meses, a mãe foi lá levá-lo, porque ele estava com o rabinho completamente em “carne viva”, e nunca mais apareceu, o petiz chamava-se Ivo, era louraço de olhos azuis, muito giro, e berrava como um possesso, passava o dia a berrar, não se calava com nada. As enfermeiras punham-no sem fralda com pomadinha e com o rabinho para o ar a apanhar o sol que entrava pela janela, para ver se cicatrizava o rabito, mas aquilo devia doer horrores ao petiz.


Este serviço era menos restritivo que a neo, ali estavam os bercinhos uns ao lado dos outros e iamos vendo e “olhando” pelos outros bebés quando as enfermeiras não estavam e os pais também não. Foi ali que dei banho aos gémeos pela primeira vez, e foi ali que eles usaram as primeiras roupinhas, não as deles, mas as do hospital porque não se podia levar nada de fora. Daí que andavam com roupas que eram doadas ao hospital e com fraldas do tamanho 2 porque eram as que existiam na maternidade, ainda assim, as enfermeiras sempre que chegava roupa da lavandaria deixavam-me escolher as “melhores” e mais bonitas para eles, eram uns doces.
Ali, compreendi também que se luta com dificuldades nas maternidades portuguesas, porque toda a boa vontade não chega, e se não fossem donativos de particulares e empresas e do próprio pessoal, aqueles bebés que ali estão internados teriam só “farrapos” para vestir porque o orçamento não chega para comprar roupa para os bebés, no entanto, o regulamento não autoriza os pais a levarem nada… É irónico. Compreendi também, que muita gente voluntariamente dá dias da sua vida, que poderiam ser passados de forma vazia, a ajudar a maternidade e aqueles bebés mais necessitados, fazem-se enxovais para bebés ali. A mãe que lá chegue sem nada saí de lá com tudo para o bebé, e infelizmente são muitas. As enfermeiras tiram do seu salário dinheiro para comprar lã, e as voluntárias fazem carapins, casaquinhos e calcinhas para dar aos bebés e para uso geral.


É incrível a forma carinhosa como os bebés são tratados, já nem falo dos meus porque nós estavamos lá sempre metidos e eles só de noite é que precisavam de mais atenção por parte do pessoal de enfermagem, mas falo de meninos como o Ivo por exemplo, posso dizer-vos que o miúdo berrava , berrava e berrava, e que nunca ouvi uma palavra mais exasperada por parte das enfermeiras, tinham lá uma espreguiçadeira e estavam sempre a abanar o Ivo enquanto davam o biberão a outros bebés.


Passados uns dias já eramos “tu cá tu lá”, e os pipizes eram o “ai jesus” do pessoal, eu já cirandava por lá para dar uns abanões ao Ivo quando elas estavam ocupadas e os meus estavam a dormir e nas horas mortas dávamos 2 dedos de conversa. Quando viemos embora, as enfermeiras e as voluntárias ofereceram-nos uns carapins para cada um: “Para recordação” disseram elas… E como recordação estão guardados junto com as pulseirinhas do nascimento e as placas que tinham nas incubadoras a dizer “1º gémeo” e “2º gémeo” e as primeiras roupinhas que eles vestiram por breves instantes.


Já lá voltei para dar roupas dos pipizes que não servem, e tenciono voltar a dar mais roupa, porque está nova e servirá para vestir bebés que como os meus lá estão internados ou cuja família tenha necessidade, e é melhor do que ficar a “mofar” dentro de uma caixa.
De uma coisa tenho a certeza, se tivesse algum tempo livre, era lá ou noutro sítio semelhante que o passaria.

Beijos a todas


PS: A Inês, soube mais tarde que sucumbiu aos 2 meses de vida, depois de uma cirurgia de 9 horas ao coração, à qual sobreviveu. Morreu de outro tipo de complicações, sózinha. Os pais foram levantar o corpo e devem tê-la enterrado como indigente num cemitério qualquer. Apesar de tudo foi um final feliz para ela...

PS2 Para quem não reparou a título tem o link de um blog sobre prematuros, passem por lá, ficam com uma idéia do que estou a falar.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Nessas longas noites de vigília, os "ses" pairavam na minha cabeça: "Se tivesse aguentado mais uns dias", "se tivesse ido para um hospital público", "se", "se", e "se"...



No domingo amanheci febril, poderia ser da subida do leite, mas aparentemente ele teimava em não subir, poderia ser algo na cicatriz, poderia ser do stress, enfim... Iniciou-se antibiótico e retardou-se por mais um dia a saída do hospital. Nesse dia também, decobriram finalmente o que tinham os gémeos: Uma infecção muito grave generalizada (Sépsis), podia-se finalmente começar a tratar o problema e esperar que eles respondessem à medicação.



Nunca soube a origem de tal infecção. Na maternidade disseram que tinha sido transmitida pela mãe, o médico da mãe acha que foi transmitida pelo serviço de Neonatologia. De facto, a mãe nunca teve sequer uma constipação enquanto esteve grávida, e foi cesareana, mesmo que houvesse alguma bactéria por ali a rondar os bebés não entravam em contacto com ela... Onde quer que eles a tivessem apanhado, não era, naquela altura, relevante, a realidade é que eles tinham uma Sépsis e que o estado era muito grave.



Na segunda-feira, tive alta, ainda que enfebrada tive alta. Estava numa ânsia para ir ver os pequeninos, saímos do hospital logo que fomos liberados e eu e o pai lá fomos ver os nossos filhos.



Na unidade de Neonatologia, lá fui ver quase pela primeira vez os meus rebentos, estava com um aperto no estomâgo, e foi um sentimento que mantive até eles sairem de lá. Quem já teve filhos internados sabe que cada dia é uma surpresa, e que um dia eles estão melhores, no dia seguinte já não se sabe o que se vai encontrar. Com os meus não foi diferente, entraram para os cuidados intermédios, no dia seguinte à tarde passaram para os intensivos e sempre com oscilações.



Confesso que ia com medo de alguma má notícia. Quando o pai me guiou através de um mundo de caixas de vidro e bips metálicos, com pequeníssimos seres todos cheios de tubos e sondas e monitores, apeteceu-me fugir dali para fora. Simplesmente fugir, tanto sofrimento junto, tantas mães deseperadas, e pequenos seres que viram pela primeira vez o mundo através do vidro grosso de uma caixa e muitos que não se sabia se alguma vez veriam outra coisa.



Quando chegamos às "nossas" incubadoras vi que os meus filhos eram dos maiores que por ali pairavam, estavam deitadinhos de rabo para o ar, cada um na sua caixinha. Cheios de sondas, monitores, e tubos. A M. sempre a resmungar, o L. com o seu arzinho plácido. Abri as portinhas da incubadora da M., meti lá as mãos e inclinei-me para falar com ela. Foi um momento emocionante, ela acalmou-se e abriu pela primeira vez os olhinhos, como se o som daquela voz e o toque daquelas mãos lhe despertasse alguma memória longínqua, fixou-me com aqueles olhos ainda inexpressivos, voltou a fechá-los, e ficou sossegada. Depois fui ao L. tão quietinho, tão querido, tão mimeco, foi como a irmã, pareceu reconhecer logo o toque e a voz da mãe e sossegou um bocadinho.



Entretanto chega a médica, que aproveitou para nos dizer que eles estavam a evoluir favoravelmente, mas que ainda nada estava ganho. entretanto aproveitou para me passar uma rabecada por ter ido ter os bebés no hospital particular. Chamou-me inconsciente e disse que se tivesse acontecido algo mais grave com eles nós seríamos os culpados... Senti-me mal... Essa era uma verdade que me perseguia desde sempre e sabia que ela tinha alguma razão. Não toda a razão porque, eles podiam ter nascido num hospital público e terem de ser transferidos para outro por falta de vagas, porque na verdade ninguém supunha que uns bebés daqueles com aquele idade gestacional fossem ter problemas... Mas enfim,ela dizia a verdade, e sei que se o pior tivesse acontecido, iria ser muito dificil para mim conviver com o remorso.



Deram o primeiro leite por biberão à M., 5 ml, ainda me lembro a carita dela quando acabou de beber aquela migalha de leite tipo a dizer "então dão-me o aperitivo, e onde está o almoço?", como não houve mais nada desatou a berrar. Fiquei lá embebecida, sentada numa cadeira entre as "minhas" duas incubadoras, ora ia a um ora a outro, por minha vontade montava lá a tenda e não saía de lá.



Mas a verdade é que tinha de vir, a febre estava num pico e comecei a não aguentar o corpo, caí na cama, tomei um benuron e fiquei encolhida com aqueles arrepios horríveis. No dia seguinte, estava com febre e com o peito todo encaroçado, duro como pedra, tinha caroços até ao pescoço. O bendito leite não saía na bomba, mas tinha subido e estava todo encaroçado lá dentro.



Fui para a maternidade. Ao desconforto da cesareana e da febre, tinha-se juntado as horríveis dores no peito, mas isso não me fazia desistir. Quando lá chegamos fomos para os cuidados intensivos e já não estavam lá as incubadoras dos bebés. durante um curto espaço de tempo entrei em pânico: "Será que morreram e não nos avisaram?", procurei um enfermeira que me deu a boa notícia que tinham passado para os cuidados intermédios outra vez. Estavam fora de perigo os meus meninos. Não preciso de dizer que chorei, acho que está por demais evidente que sim, por isso avanço essa parte antes de começar outra vez a chorar.



Estavam já na sala dos intermédios, só que agora um em cada ponta. Lá andei eu tipo ventoínha, a cair de pé, de um para outro. Foi um sacrificio fisico muito grande, houve uma altura em que pedi uma cadeira para pôr debaixo das pernas, e outra em que me apeteceu deitar-me nos sofás que tinham na entrada do serviço, mas aguentei e de tarde tive a recompensa de poder pela primeira vez mudar a fralda à minha filha e pegar-lhe ao colo, de facto foi aos 2, mas foi a ela primeiro.



Foi uma emoção, devo dizer que ela tinha feito uma cocozada e que eu a mudá-la dentro da incubadora sujei tudo, os lençóis, o colchão, enfim uma verdadeira vergonha... Mas quando a tive no meu colo e lhe dei o biberãozito... Nem consigo descrever o que senti.



Com o L. pude deixá-lo experimentar a mamaroca dorida, mas ele não se demonstrou grande apreciador. Em primeiro lugar porque aquilo não deitava nada, e em segundo lugar porque o biberão era muito mais fácil.



Dali fui para o Hospital onde trabalha o meu médico, porque tinhamos que desencaroçar aquele leite antes que descambasse em mastite. Lá fui submetida a tratamento de choque, injecções de Syntocinon, e vaporizador de syntocinon no nariz, mais duas enfermeiras amorosas agarradas a mim com toda a força a passar toalhas a ferver e a espremerem as ditas cujas. Posso dizer que foi pelo pior que passei até hoje, fartei-me de berrar lá, e cheguei a implorar à médica que me secasse o leite, só desisti porque ela me disse que mesmo que secasse teria de tirar o que estava lá dentro. Foi horrível, e depois de tudo o que se estava a passar sucumbi à autopiedade, e o caminho para casa foi todo feito a chorar, realmente não havia nada que não me acontecesse.

Beijos a todas

terça-feira, setembro 25, 2007

Caramba...

Por mais um desfecho negativo, por mais uma esperança perdida, por mais um sonho adiado...

Beijos a todas

quarta-feira, setembro 19, 2007

E mais palavras

O anoitecer não trouxe nada de novo, continuavamos sem filhos e sem notícias. Começava a invadir-me um sentimento indescritível, um aperto no peito com apreensão, ou algo parecido. Associei esse sentimento ao facto da falta de notícias, mas a verdade é que, tinha nascido uma mãe dentro de mim e eu ainda não sabia.

Por volta das 20 vem o pediatra dizer que estavam bem, que a M. ainda continuava a precisar de oxigénio e bla bla bla, voltava mais tarde para fazer o ponto da situação e ver se podiam vir para o quarto. Naquele momento, o meu lado racional absorveu o maternal e disse-lhe: "Dr. se precisar de transferir os bebés não hesite!" - ao que ele respondeu: "Não se preocupe que se achar necessário nem lhe peço autorização!".

A minha inquietação crescia ao minuto, algo dentro de mim me dizia que algo de errado estava a acontecer, logo na altura em que eu achava que já nada poderia correr mal, as forças do além mostravam que "nothing is over till it's over" (esta é das frase que exprime o que sentia e em português não lhe consegui arranjar substituto por isso vai em inglês).

Por volta das 10h30 volta o pediatra e anuncia que vão passar a noite sob vigilância mas que não vêm para o quarto porque a M ainda precisa de cuidados de oxigénio e mais bla bla bla. A inquietação aumenta, a adrenalina sobe, apetece-me soltar os "pregos" que me prendem à cama, mas naquele momento chega o meu médico que diz para nem pensar nisso, que não autoriza. Sinto-me inútil e impotente perante os meus 2 filhos recém nascidos.

Quando toda a gente foi embora, começo a ouvir um choro forte seguido de um alarme, o A. diz-me, aquela é a máquina onde está ligada a M, quando ela chora liga o alarme porque desce o nível de oxigénio, o L também está numa igual.

Aquele choro era uma constante. Ao acalmar dos sons do hospital, era mais nítido. Afinal eles estavam ali, numa sala quase ao lado, e eu não podia acalmá-los, acarinhá-los, abraçá-los, nada... O choro continuava, o alarme continuava. Não conseguia dormir, o torpor da tarde deu lugar a uma agitação inominável, e só conseguia ouvir o choro da minha filha, e como ela chorava... Comecei a ficar ansiosa, cada vez mais, por volta das 4 da manhã a ansiedade atinge o pico e comecei a ter convulsões e vómitos. O A com um "penico" para eu vomitar (não tinha nada para vomitar porque não tinha comido nada) e a mão na campaínha para chamar a enfermeira, estava aflito. A enfermeira veio, e lá injectou uma droga qualquer na veia do soro e a coisa acalmou, mas continuava a ouvir aquele choro aflito e aquele alarme. É das coisas que por muitos anos que viva nunca vou conseguir esquecer, a minha sensação de impotência face ao sofrimento dos meus filhos.

De manhã, o pediatra chega e comunica que os vai transferir. A M. não melhorou e o L piorou e também estava agora a necessitar de oxigénio. Não sabiam o que estava a suceder, tinham de ir para um serviço especializado, para uma neonatologia. As lágrimas corriam-nos pela cara abaixo. Sabíamos que era o melhor para eles, mas ao mesmo tempo sabiamos que algo estava errado.

Eu ainda não os tinha visto, depois daquele vislumbre no nascimento. Chamei a enfermeira para me tirar a parafrenália que queria ir vê-los antes de irem. Não me queriam deixar, tive de ser persuasiva e dizer que se não me tirasse a algália e me ajudasse eu mesma o faria e que ninguém me impediria de ir vê-los. Lá consegui que me tirassem da cama e lá me arrastei para ver os meu bebés.

A dificuldade de todo este relato, é que ao rever estes episódios, as lágrimas teimam em queimar cá nos olhos. Por isso o adiamento para agora deste evento.

O que vi, quando lá cheguei foi a minha filhinha só de fraldinha, de rabinho para o ar, debaixo de uma máquinha que parecia uma chocadeira, com sensores num pézinho e num dos braços com algo que devia ser soro. As lágrimas escorriam-me pela cara enquanto falava com ela e a sentia acalmar ao som da minha voz. Vi-a pela primeira vez, uma cabeleira negra certinha, parecia que tinha um capacete na cabeça, um ar de rezinza que não perdeu até hoje, linda e no entanto já sofrida.

Procurei o L. estava noutra sala, ele ainda estava vestido com as primeiras roupinhas, estava ofegante e parecia um gatinho a respirar, fazia tipo um gemido. Lindo com uns pelinhos louros na cabecinha, parecia um pêssego.

Foi ali que soube que tinham tido índice de Apgar 9 ao 1º minuto e 10 ao 5º, e que agradeci o facto de ter estado acordada quando eles nasceram, para assim ter podido ver que nada de errado se tinha passado no parto. O que tinha acontecido a seguir tinha tanto de inesperado quanto de estranho. E nem o pediatra sabia o que dizer quando lhe perguntei: "Dr. os meus filhos correm risco de vida?" - a resposta foi: "Não vamos pensar nisso agora." - tive então a certeza que a situação era complicada, porque o meu instinto já mo estava a dizer há horas.

Veio a incubadora do INEM, levaram primeiro o L que estava piorzito na altura, despiram o meu pêssego, ligaram-lhe tubos e tubinhos e lá o vi ir. Fiquei com a M, passado um bocado foi a vez dela, o pai seguiu com eles eu fiquei agarrada à minha barriga e à minha dor, sem nada poder fazer a não ser rezar e chorar.

A família e os amigos começaram a chegar. Se na altura, achei que não queria ver ninguém e me apetecia mandar toda a gente embora. Hoje sei que foi bom que tivessem estado comigo, porque não me deixaram afundar em autopiedade e assim, fui conseguindo forças para enfrentar mais um revés que me estava a acontecer. Foram todos muito importantes naquela fase, e ainda hoje sou muito agradecida a todos os que me acompanharam principalmente naquele primeiro dia.

Os dias que se seguiram não foram fáceis. Eles pioraram e no Sábado foram transferidos para os Cuidados Intensivos com a indicação de que as 72 horas seguintes seriam decisivas, ou viviam ou sucumbiam. O A é que trazia as notícias e as fotos deles das incubadoras, era a única forma de os ver. Quando foram transferidos não sabia se os voltaria a ver ou não, estavamos desolados. Naquela altura optamos por filtrar a informação, não queria ninguém ali por perto com cara de choro ou com ar de tristeza, já me bastava a minha. Ninguém sabia até há pouco tempo atrás que eles tinham corrido risco de vida.

Acho que nunca niguém me viu chorar, a não ser o pediatra deles, que ao andar à minha procura me encontrou na capela lavada em lágrimas. Escolhia o recolhimento para chorar a minha dor, e aí chorava sem fim até quase esgotar as lágrimas, mas em público não queria chorar. É assim que eu sou, espalha brasas no geral, mas muito reservada nos meus sentimentos, acho que as pessoas terem pena de nós não é nada bom, e andarmos a chorar as pitangas também não faz mudar a realidade dos factos. E como diria a Piolha, aparecia sempre alguém com uma história pior para contar e eu não estava com disposição de ouvir as desgraças dos outros.

O meu médico andava cá e lá, na maternidade para saber dos bebés, no hospital para saber de mim, estava preocupado, sobretudo com a minha sanidade mental, estava com medo que eu não aguentasse a pressão e sucumbisse numa mistura de hormonas. Manteve-me presa ao hospital, para pelo menos recuperar a parte física, porque como ele dizia e sabia, mal me libertasse eu não iria ter um momento de sossego. Drogavam-me à noite para verem se eu dormia. eu caía pedrada 1 hora ou 2 e depois ficava em vigilia sem conseguir dormir, a imaginar os meus filhos ali sózinhos num aquário de vidros, cheios de tubos, agulhas sondas, e pior de tudo, depois de 36 semanas acompanhados pela mãe e um pelo outro... Sózinhos... Sózinhos... E chorava sózinha no silêncio da noite.

Beijos a todas